A devoção é uma dedicação que ultrapassa até as barreiras da vida. A inspiração para o título do livro de Patti Smith veio de uma lápide antiga vista em Sète (França), durante a sua busca pelo túmulo do filósofo Paul Valéry. Esta ideia, de fonte tão inusitada, é igualmente digna do livro que Smith oferece ao leitor. Em um relato, ora diário de viagem, ora divagações sobre as curiosidades da vida, a artista revela seu processo criativo.

É interessante perceber como, sobretudo, Patti Smith não filtra referências. A inspiração não escolhe lugar para vir e, assim sendo, quanto mais preparados para criar nós estivermos, melhor. E o preparo vem, exatamente, de informações que sabemos, ainda que não façamos ideia da sua utilidade quando as aprendemos. Ou se elas terão qualquer utilidade.

Sobre a divagação

Lendo a primeira parte de Devoção, fica muito claro que Smith é adepta da divagação. No dicionário, a você encontrará a definição “ato de andar sem rumo”. Por analogia, a divagação mental é permitir que nossos pensamentos andem sem rumo. Que nossa mente, a princípio treinada para resolver problemas com objetividade, faça o caminho mais longo. Que, como resultado, visite caminhos que quase ninguém conhece.

Por consequência, Devoção reúne o que para muitos seria “encheção de linguiça”. O trailer de um filme da Estônia sobre exilados políticos. A apresentação de patinação artística vista de madrugada. A escolha dos livros que Smith levaria para uma viagem. Afinal de contas, aonde este livro quer chegar?

patti smith hoje
Patti Smith

Quando, em seguida, a segunda parte do livro traz um conto escrito a partir destas informações “aleatórias”,  finalmente começamos a entender o ponto da autora.

A devoção é um chamado

Em uma visita à casa de Albert Camus, Patti Smith traz outra reflexão igualmente transformadora. O papel da Arte, por mais que seja encantadora, é despertar. Despertar quem entra em contato com ela para criar. A Arte, portanto, é catalisadora de si mesma: somos capazes de criar Arte tanto quanto somos expostos a ela.

patti smith jovem

E por que escrevemos? Não espere de Patti Smith uma resposta fechada. A “Rainha do Punk”, vencedora do National Book Award, fotógrafa e tanto mais, de tal forma que seria preciso um artigo apenas para listar suas habilidades, nos deixa com uma resposta igualmente provocativa:

“Porque não podemos somente viver.”


Ficha Técnica
Devotion – Estados Unidos
Título no Brasil:
Devoção
Autor: Patti Smith
Tradução: Caetano W. Galindo
Gênero: Criação (Literária, artística etc.)
Primeira publicação: 2017
Edição brasileira: Companhia das Letras
Número de páginas: 144
Idioma: Português
ISBN: 978-85-359-3276-8

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Gustavo Pereira

Eu te respeito, mas se você veio no meu site falar mal de minha família ou de roteiro, veio no lugar errado.

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