Cansado de repetir à exaustão os clichês dos filmes de super-heróis, o DC Studios parece consolidar uma nova tendência, o de roubar clichês de outros gêneros e apresentá-los como algo original. Sei que a afirmação parece dura, mas não chega a tanto. Apesar de certa insegurança em avançar rumo ao caos, Cara de Barro finalmente engrena quando assume de vez sua vocação para o terror corporal e sádico, tornando-se um escapismo divertido que entrega exatamente aquilo que se deveria esperar dele.

O filme acompanha a tragédia de Matt Hagen, um jovem de Gotham que alcança o sucesso como galã de Hollywood, mas tem a carreira destruída após ser brutalmente desfigurado por um chefe do crime. Desesperado para recuperar a aparência, ele se submete a um tratamento estético clandestino que devolve seu rosto, mas provoca uma mutação celular devastadora, transformado-o em uma criatura de argila viva. Hagen, então, mergulha na loucura e parte em busca de vingança contra os responsáveis por sua ruína.

A premissa oferece material para um drama trágico sobre vaidade, identidade e degradação física e psicológica e o filme algumas vezes tenta mentir dizendo que é isso que está fazendo, porém, não parece ser capaz de aproveitar todo esse potencial. A verdade é que é difícil avaliar Cara de Barro sem considerar também o momento da indústria e as dificuldades enfrentadas pelo estúdio que o produziu. Talvez o tempo seja mais generoso com o longa, mas, por enquanto, resta observar o que ele representa dentro de uma estratégia mais ampla.

Terror nas telas, drama fora delas

Um dos vilões mais antigos do Batman, Cara de Barro fez sua estreia nos quadrinhos em 1940. Sua transformação em protagonista de uma produção de terror corporal representa mais uma tentativa da DC de se afastar das fórmulas tradicionais dos filmes de super-heróis, tão alardeado como um gênero cansado hoje. A comparação com Coringa (2019) é inevitável: o longa protagonizado por Joaquin Phoenix demonstrou que personagens da editora podiam sustentar histórias concebidas a partir de outros gêneros, conquistando tanto o público quanto a indústria cinematográfica. Não espanta que o estúdio tente recuperar aquela fórmula, especialmente diante das dificuldades comerciais que se acumularam desde então.

Vejam os exemplos desde então, Adão Negro, Coringa: Folie à Deux, Besouro Azul e The Flash tiveram resultados comerciais abaixo das expectativas. Até mesmo o aguardado reboot de Superman, lançado no ano passado, arrecadou cerca de US$ 618 milhões, ficando aquém da marca de US$ 1 bilhão alcançada por alguns dos maiores sucessos do gênero. Já Supergirl, lançado neste ano, pode provocar um prejuízo estimado entre US$ 100 milhões e US$ 125 milhões para o estúdio. O cenário remete a outros momentos críticos da Warner, como o cancelamento de Batgirl, filme já concluído e arquivado como parte de uma estratégia de redução de custos e obtenção de benefícios fiscais. Não tem sido um bom momento para o estúdio. A pressão para colocar as produções da DC em andamento também parece ter afetado Cara de Barro. Mike Flanagan, responsável pela concepção original do projeto e admirador de longa data de Stephen King, precisou abrir mão da direção para se dedicar a outros compromissos profissionais, entre eles a adaptação de Carrie, do próprio King. A decisão foi especialmente dolorosa para o cineasta, que, há cerca de um ano, descreveu sua saída como uma das grandes tristezas de sua carreira: “Foi uma das grandes tristezas da minha carreira, e lamento muito que, quando chegou a hora de fazer o filme, e eles queriam fazê-lo imediatamente, eu não estivesse disponível.”

O roteirista Hossein Amini (Drive) e o diretor James Watkins (Eden Lake) assumiram o projeto após a saída de Flanagan. O filme seguiu adiante, mas teve o azar de chegar às telas em um momento no qual a nova fase da DC enfrenta problemas de controle de qualidade.

Isso ajuda a entender algumas das contradições do longa. Supostamente, o roteiro original de Mike Flanagan oferecia maior complexidade ao personagem, que aqui é reduzido a um sujeito aparentemente boa-praça que enlouquece por causa de ciência maluca. É uma abordagem bastante simplória para uma história com potencial trágico. Por outro lado, o filme encontra no horror corporal seus momentos mais impactantes. A cena já revelada no trailer, em que Matt tenta cortar a carne que cresce sobre seus olhos durante um voo turbulento, é brilhantemente horrível de assistir.

O contraste também aparece na própria realização. Apesar da eficiência dos efeitos gore, o filme não tem o apuro visual que se esperaria de uma produção desse porte. Em vez de construir uma Gotham sombria e ameaçadora, a fotografia parece saída de uma série de televisão aberta americana, sendo mal iluminada, sem personalidade e desprovida de atmosfera. Nesse aspecto, até Coringa soube aproveitar melhor a cidade.

A diversão é só mais um disfarce

Apesar disso, como já disse, se o que você procura é escapismo com boas doses de gore, vai encontrar isso aqui. O filme não desperdiça muitas oportunidades de exibir sangue e pele sendo arrancada diante da câmera. Mesmo quando a trama envereda por caminhos mais fantasiosos, com o desenvolvimento das habilidades de transformação e disfarce do protagonista, ainda há espaço para momentos genuinamente engraçados em meio à sua vingança macabra.

Tom Rhys Harries, que interpreta o protagonista, faz um bom trabalho. Sua aparência travessa sugere uma escuridão interior que o roteiro, infelizmente, pouco explora. O ator evita exageros mesmo quando o material oferece oportunidades para uma atuação mais carregada. Naomi Ackie, por sua vez, interpreta Caitlyn com simpatia, embora a personagem seja mais ingênua do que propriamente uma cientista louca, apesar de ser responsável pela criação do monstro em que Matt se transforma. O filme sugere que os nanorrobôs que invadem seu organismo não criam sua perversidade, mas apenas despertam e amplificam um lado sombrio que já existia. É uma pena que essa possibilidade nunca seja devidamente explorada.

Em vários momentos, imaginei que o filme revelaria algum episódio de vilania no passado de Matt, anterior à sua transformação monstruosa. Durante a campanha de difamação promovida por seu algoz, descobrimos que foram fabricadas falsas acusações sobre sua adolescência. Ao mesmo tempo, o noivo de Caitlyn, um policial, alerta a cientista de que ela deveria conhecer melhor seu paciente. Os indícios, porém, não levam a lugar algum. É uma oportunidade desperdiçada, sobretudo quando lembramos de como Pinguim, a série derivada do universo do Batman concebido por Matt Reeves, soube explorar as origens e a formação moral de seu protagonista.

Isso acaba se tornando a grande chave de leitura de Cara de Barro: uma obra que fica muito melhor e mais divertida quando você desconhece seu potencial, ignora as possibilidades que deixou de lado e os outros projetos ao seu redor que souberam aproveitá-las melhor. É um boneco de lama que até pode impressionar à primeira vista, mas desaba lentamente à medida que você continua olhando, porque não tem uma estrutura sólida em seu interior.

No fim, fica a dúvida: esse personagem não está morto em Comando das Criaturas? Não. James Gunn já fez um retcon disso também.

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Rafael Assis

Rafael Assis é escritor, poeta e redator, natural de Minas Gerais.

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