‘Era uma Vez no Oeste’ e seu início perfeito

Era uma Vez no Oeste está em praticamente todas as listas de melhores westerns de todos os tempos. O filme do italiano Sergio Leone, protagonizado por Charles Bronson e Henry Fonda, além de uma grande homenagem aos filmes de caubóis, é uma aula de Cinema. Algo que se nota, literalmente, a partir de sua primeira cena.

Leone era mestre em acrescentar profundidade a tramas aparentemente simples. A primeira meia hora de Era uma Vez no Oeste é usada por ele para estabelecer os dois personagens principais de sua história. São duas cenas e pouquíssimos diálogos, mas o espectador é fisgado de forma definitiva para as mais de duas horas ainda por vir.

Mas como Leone fez a sua “mágica”?

História dentro da história

A primeira cena de Era uma Vez no Oeste apresenta o Homem Com A Gaita (Bronson). A segunda, Frank (Fonda). O que torna estes segmentos interessantes é o fato de ambos funcionarem sozinhos. As introduções de “Gaita” e de Frank contêm todos os elementos de uma história fechada, tornando cada cena numa espécie de curta-metragem.

Os elementos essenciais de uma história são, de acordo com John Yorke (mais detalhes, em inglês, no seu livro): protagonista, antagonista, incidente, desejo/jornada, crise, clímax e – ocasionalmente – resolução. Leone e o co-roteirista Sergio Donati utilizam todos estes elementos nas duas primeiras cenas.

O Homem da Gaita: demonstração de poder e vulnerabilidade

O protagonista desta cena é Snaky (Jack Elam), líder da gangue de Frank. Isso fica claro quando ele “lida” com o chefe da estação de trem e logo em seguida, quando ele se senta enquanto os outros membros da gangue cobrem o perímetro. Seu desejo/jornada é descobrir quem marcou o encontro na estação e informar Frank.

O incidente está na chegada do trem. Não exatamente por ela, mas pela impressão de que ninguém desembarcou. A pessoa esperada faltou ao encontro. Snaky e seus sócios se preparam para partir quando um dos temas mais famosos de Ennio Morricone marca a chegada do antagonista.

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“Gaita” não é o antagonista por ser o vilão, mas por representar um obstáculo para o desejo do protagonista. Após uma troca curta entre os dois, vem a crise. Frank pede por um cavalo, Snaky diz que veio com um cavalo a menos e ouve a resposta hoje icônica:

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O clímax é óbvio: a troca de tiros entre “Gaita” e os pistoleiros, com a morte destes. Na resolução, descobrimos que “Gaita” sobreviveu, mas por pura sorte. A cena termina sem deixar pontas soltas, com todos os elementos de uma história completa sendo utilizados e expondo um aspecto importantíssimo e novo na obra de Leone. Em Era uma Vez no Oeste, a sobrevivência é uma questão de acaso. Todos podem morrer, inclusive o personagem principal do filme.

Frank: falta de limites

A segunda cena de Era uma Vez no Oeste começa com pai e filho caçando aves. Brett McBain (Frank Wolff), o protagonista aqui, tem como desejo promover uma recepção luxuosa para sua nova esposa, prestes a chegar à cidade de trem. O incidente acontece quando Frank, o antagonista, impede esta recepção de acontecer… matando Brett e seus filhos, Patrick e Maureen, a sangue frio.

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O pequeno Timmy, dentro de casa na hora da chacina, é confrontado pela gangue de Frank. A crise se manifesta no dilema sobre o que fazer com a criança. Mas Frank, demonstrando uma completa falta de limites morais, o resolve num dos clímaces mais cruéis do Cinema matando Timmy, pois ele havia ouvido seu nome.

Por que este é o começo perfeito para Era uma Vez no Oeste?

Em um filme com quase três horas, estabelecer a estética, o tom e os dois principais personagens em menos de 30 minutos é um feito. Estas duas cenas fazem isso de maneira tão competente quanto elegante.

A gangue de Snaky domina a estação de trem com tanta facilidade que, ao ser morta por “Gaita”, por comparação, mostra a capacidade do personagem de Charles Bronson. Um homem sozinho capaz de derrubar três pistoleiros, certamente, é páreo para seu adversário.

Frank, interpretado pelo “cara legal” Fonda, ao executar uma criança enquanto a olha nos olhos e sorri, demonstra uma psicopatia assustadora. Leone já havia usado a mesma estratégia com o “Mau” de Lee Van Cleef em seu “Três Homens em Conflito”: para mostrar que um personagem é ruim, apresente-o matando uma criança.

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Nas cenas, Percemos também o quanto o Velho Oeste é estático e isolado e o progresso é uma força transformadora. A espera pelo trem demora tanto que as gotas de água pingando no chapéu de um dos pistoleiros se acumulam a ponto dele conseguir bebê-las quando o trem finalmente chega. A locomotiva parada “respira” como um animal de grande porte.

Já na fazenda McBain, o silêncio repentino do grilos cria uma atmosfera de terror. Trabalho primoroso da equipe de som, que torna o fatiar de um pão numa experiência tensa. Os tiros, com uma mixagem para deixá-los excessivamente altos, por contraste, criam um choque na ordem natural das coisas. Uma alteração tão violenta do espaço quanto o trem a vapor, que mais tarde se mostrariam diretamente relacionados.

Ao fim de Era uma Vez no Oeste, percebemos como estas duas cenas são o início perfeito para o filme: um ambiente transformado pela força bruta, graças às ações de dois personagens apresentados pela mesma música. Definitivamente, merece o raro selo de “obra-prima”.

Onde assistir a Era uma Vez no Oeste

A obra-prima de Sergio Leone, neste momento, está no catálogo da Netflix. Um filme que segue tão influente mais de meio século após sua estreia sempre vale a pena. Você pode assistir clicando aqui.

Não deixe de dar sua opinião nos comentários!


Ficha Técnica
C’era una volta il West (1968) – Itália e Estados Unidos
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Donati & Sergio Leone
Edição: Nino Baragli
Fotografia: Tonino Delli Colli
Design de Produção: Carlo Simi
Trilha Sonora: Ennio Morricone
Elenco: Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards, Gabriele Ferzetti & Claudia Cardinale

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Gustavo Pereira

Eu te respeito, mas se você veio no meu site falar mal de minha família ou de roteiro, veio no lugar errado.

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Respostas de 9

    1. Marcos, muito obrigado pelo elogio!
      Não esqueça de seguir a gente nas redes sociais (tem links diretos à direita, no topo e no pé de cada página) para não perder nenhuma publicação nova.
      A gente espera seguir produzindo conteúdo que te faça voltar mais vezes aqui!

  1. Gustavo, sua análise de ERA UMA VEZ NO OESTE, talvez o melhor filme de faroeste já produzido na HISTÓRIA DO WESTERN, está irretocável.

    Pessoalmente eu considero ERA UMA VEZ NO OESTE o melhor filme de faroeste de todos os tempos. O tema é instigante, a direção é monumental, e o filme é uma obra-prima que nos prende do início ao fim.

    Parabéns pelo artigo.

  2. Gustavo Pereira, seu comentário está excelente.

    Esse é o melhor filme de faroeste de todos os tempos, e o que é mais curioso, não é americano, é italiano. realizado por um diretor italiano quer já havia filmado a Magna Trilogia dos Dólares.

    Quem há de negar que esse é o maior filme de faroeste da história do western?

      1. Negue até ficar fraco! Dança com lobos é bom mas está aquém do magistral filme de Sérgio Leone há léguas de distância!

  3. Meu filme preferido, visto incontáveis vezes, a ponto de decorar todos os planos, diálogos e cenas. Não sou fã de westerns, porém esse filme, assim como algumas poucas obras-primas (como bem o definiu este blog), conseguem transcender seu gênero, o tempo e a própria técnica por adquirir uma aura própria, etérea, como as melhores obras de arte. Direção, fotografia, roteiro, atuações, além da melhor trilha sonora já produzida são elementos que se imbricam à história. E, para mim, essa trama é o maior tesouro do filme. Há, como disse o autor desta crítica, a presença de um niilismo asfixiante e crescente, na constante presença da morte.

    Porém, em meio ao nada e ao individualismo quase absoluto, os anseios e a vida realizam-se nos raros e profundos desejos que movem as personagens. Em um dialógo, Frank assume não ser igual a Morton, pois o negociante iria embora e não se importaria em saber que seu inimigo estava vivo. Harmônica pergunta se, afinal, ele não era um homem de negócios e a resposta é: “Apenas um homem”, raça antiga que outros Mortons viriam tentar destruir, na fala de Harmônica.

    Essa é a síntese da beleza do filme. Nada importa na secura e destruição da vida que levam, exceto o desejo maior que os impulsiona: o poder, para Morton; uma família, para Cheyenne; vida para Jill; morte, para Frank e Harmônica.

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